Jaraguá a nossa Macabéa
Jaraguá a nossa Macabéa
Maria Eliane S Melo*
O ano era 1922, do mês de Março, quando o navio Cuyabá, aporta no Porto de Jaraguá - vindo de Hamburgo na Alemanha - trazia com ele a Família Lispectors. A filha caçula, tinha o nome de Haia – que significa vida, ou clara -, que viria a ser Clarice. ¹ Era a nossa doce Macabéa, que viria a ser a obra final, abençoada por ser alagoana. Ela tinha dois meses de vida, quando desembarcaram no Porto de Jaraguá.
A Ponte de Desembarque, já demolida, tinha inicio entre o atual Museu Imagem e do Som e o extinto Produban, hoje Caixa Econômica Federal, numa construção de bom gosto com três entradas sem portas, e em cujos fundos começava o estrado sobre pilotis metálicos até um galpão elegante, coberto com aprumo, de onde desciam as escadas para transbordo dos passageiros, tudo infelizmente demolido. Dali, via-se a Estatua da Liberdade, por trás da Recebedoria, aquela que migrou por algum tempo para a Praça Manoel Duarte e a que ninguém dá hoje a menor importância.²
E até hoje ninguém sabe se o nome da Ponte devesse ser de Embarque ou Desembarque. Os que gostavam mais da alegria na chegada chamavam-na de Desembarque, mas a maioria preferia a denominação de Ponte de Jaraguá. Tornou-se inútil ,não pelo envelhecimento e depois demolição, que até mesmo todas as coisas passam, mas porque o Cais do porto, hoje Porto de Jaraguá. Mas a Ponte era romântica, com o bote a se afastar em remadas de ritmo, levando para cada vez mais longe, devagar, o viajante.³
Macabéa não sabe quem é, o que a torna incapaz de impor-se frente a qualquer um, começa a namorar Olímpico de Jesus, nordestino ambicioso, que não vê nela chances de ascensão sócia. Assim sendo, abandona-a para ficar com Glória, colega de trabalho de Macabéa; afinal, o pai dela era açougueiro, o que lhe sugeria a possibilidade de melhora financeira. Triste, nossa personagem busca consolo na cartomante, que prevê que ela seria, finalmente, feliz... A felicidade viria do "estrangeiro".
Ao sair da casa da cartomante, Macabéa é atropelada por Hans, que dirigia um luxuoso Mercedes-Benz. Esta é a sua "hora da estrela", momento de libertação para alguém que, afinal, "vivia numa cidade toda feita contra ela".
Jaraguá vive ainda o seu encanto, mas mantém sobre si o véu do esquecimento onde a violência e o descaso escorre pelos becos e pelas ruas.
que texto bonito!
ResponderExcluirObrigada, Renata.
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